milkybar

junho 18, 2019

Eu morava bem perto da praça. Perto mesmo: o maior morro passando a primeira esquina onde ela acabava. Quando criança, meu pai costumava passar um bom tempo lá, de noite, conversando com os amigos (ou não tão amigos assim) dele sobre política.

Na época eu ainda não entendia isso, claro. Na minha cabeça eles estavam lá por conta de assuntos triviais como preferência de cigarro ou uma ou outra fofoca da cidade. É, talvez até falassem sobre isso também, sim.

De vez em quando eu ia junto com ele. E enquanto eles ficavam conversando em volta do trio de bancos em frente ao café 120, eu costumava ficar brincando de correr em cima do murinho arredondado que cercava as plantas de lá. Alguns deles eram pequenos: eu dava uma volta completa e ainda permanecia no campo de visão do meu pai.

Outros, não: meia lua e ele já não podia me enxergar mais. De vez em quando ele falava: Auana, volta pra cá, fica aqui mais perto.

Noutras vezes ele, no meio de alguma discussão acalorada, não me via tentando dar essa volta. E aí eu ficava naquele misto de ansiedade e inquietação decidindo se eu dava a volta completa, ficando mais perto da rua e mais longe de todos eles, ou não.

As vezes eu ia. Vinha uma coragem de não-sei-onde e eu pisava fundo até dar a volta. Não como desafio, mas porque eu também tinha um pouco de medo de fazer isso. Quando eu terminava a volta, lembro da mão suando e a adrenalina. Me sentia como se tivesse feito algo que ninguém viu, como se eu fosse invisível. Explico: o outro lado era bem mais próximo à rua do que a parte de dentro da praça em si. E com a rua já vazia e escura, não tinha ninguém pra lá.

É engraçado pensar como a gente grava algumas coisas tão triviais. Não lembro de vários momentos da escola, não lembro de diversas aulas das matérias que amei cursar na faculdade, não lembro de momentos que quando me contam eu penso que foi até outra pessoa que os viveu. mas lembro exatamente da cena que meus olhos registraram em todos esses pequenos instantes que representavam coragem pra mim: as lojas fechadas, uma ou outra árvore com os galhos tremulantes, olhinhos de gato por entre alguns portões trancados, a sarjeta pintada de amarelo fazendo diferença na escuridão.

E eu ali. Desafiando ao meu pai, de certa forma, mas também a mim mesma e ao mesmo tempo criando um segredo só meu que tampouco teria importância pra dividir com algum amigo depois. E olha que sempre fui de dividir tudo. Mas isso, ah, no fundo depois eu sabia que era bobeira. Só era importante quando eu estava lá, vivendo o momento. E também quando eu chegava em casa, logo após.

Porque antes de voltarmos, o meu pai me dava um milkybar. Pra ele, só um agrado. Pra mim, uma recompensa. Me sentia a menina mais valente, cheia de segredos e invisível do mundo. O troféu era o chocolate que eu mais gostava e ninguém sabia disso.

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