fiquei, por anos, com birra do show do milhão
julho 06, 2019
Eu podia ter ido dormir, mas eu decidi esperar o Show do Milhão começar. Depois de tudo acontecer, martelava na minha cabeça que tudo tinha sido culpa minha, da minha falta de sono, da vontade de saber se alguém ia levar aquela grana pra casa e também do Silvio Santos.
Estávamos sentadas assistindo, quando alguém pareceu querer tirar a porta da frente todinha com a força dos braços, de tanto que batia e sacudia. Minha vó levantou e foi lá destrancar.
Ela entrou, ignorando completamente a minha vó, e falou pra mim:
- Você vem comigo.
Minha vó tentou intervir. Falou que eu tinha acabado de tomar banho (não era verdade, já fazia algum tempo), que estava com o corpo quente pra sair no sereno, que não fazia o menor sentido, que já estava combinado pra eu dormir lá, que minha cama já estava arrumada pra isso.
Ela continuou firme na decisão. Eu nem vesti a minha roupa: coloquei só um casaco por cima do pijama, calcei um chinelo e fomos.
A rua já estava vazia. Não sei que horas eram, mas não se via ninguém, ainda mais porque também estava frio. O primeiro orelhão que ela viu, parou e telefonou. Eu não tinha ideia a respeito do que ela estava falando porque ele tava longe do carro.
Voltou. Dirigiu mais um tempo até achar mais um orelhão, já distante daquele primeiro. Parou, telefonou de novo. "Eu vou sumir com ela" era o que, finalmente, entendi que ela falava. Eu não sei se questionei, não sei se estranhei. Eu só pedia pra voltar pra onde eu estava, só isso. Pedia pra ela parar mas ela não me ouvia. Em cada ligação, era a mesma frase sem parar. Palavrões no meio. Todos os xingamentos que eu já conhecia e mais um pouco.
Parou em mais outro e depois outro, e depois outro e quando ela seguia pro próximo, percebeu que tinha um carro atrás da gente. Aí, feito gato e rato, ficaram os dois carros correndo pela cidade. Eu nem sabia que o Chevette 67 dela conseguia correr tanto assim - e tampouco o carro que vinha atrás, que eu não me lembro agora qual era porque ele trocava de carro quase todo ano.
Aí ela parou. Ao lado do Jardim Público. Ela estacionou, ele também e desceu do carro dele antes que ela pudesse se dar conta, veio correndo para o nosso. Ela saiu, não sei quem começou, não sei quem gritou primeiro, mas eles começaram a maior briga que eu já vi em toda a minha vida. Ela batia muito nele. E o pior, e que eu jamais poderia imaginar ver, é que ele batia muito nela também.
De dentro do carro eu só queria sumir. Que o banco de repente abrisse ao meio e eu caísse ali, indo parar em outra realidade, outro mundo, muito mais quieto e pacífico. Ou que eu fechasse os olhos e me deparasse com a cama perfeitamente arrumada pela minha vó, com o travesseiro cheirando à sabonete guardado na gaveta junto com a fronha.
Quando eu vi que não tinha jeito, que não importasse o quanto eu suplicasse, berrasse, me lavasse por inteira de tanto chorar, eu abri a porta e corri para o outro lado. Corri dando a volta na rua, corri por maior que fosse o medo de que encontrasse com algum maluco por ali, naquela hora, porque não tinha medo maior do que aquele. Porque até o maluco seria melhor. Porque entrar em uma casa desconhecida e poder sair daquela loucura seria melhor e maior, um sonho.
Não lembro do que aconteceu depois que eu corri. Como um apagão, só me recordo do que veio a seguir: Voltamos e já estávamos na minha casa. Ele ficou batendo no portão, falando pra eu ir embora com ele. Eu olhava com medo, com nojo, com um terror absurdo à tudo aquilo.
Ela fechou a porta, a gente subiu pro quarto dela e ela tirou a roupa pra me mostrar, um a um, todos os hematomas que tinham ficado em seu corpo depois da luta que eu havia presenciado lá fora. Dormimos na mesma cama. Ela fechou a porta do quarto também, pra abafar o barulho dele lá no portão. Eu ouvia os passarinhos já cantando na janela. Eu ouvia o meu coração, batendo tão rápido e tão forte, que parecia querer sair pela minha boca.
É ficção.
1 comentários
eita, deu até uma aflição antes da parte "é ficção"
ResponderExcluirbe kind <3