mensagem
abril 11, 2020
Atrás da minha casa tinha um terreno baldio bem grande. Justamente a janela do meu quarto era a que dava para o terreno. Ele, na realidade, deveria ser a junção de três ou quatro outros terrenos, de tão grande que era. Ali tinha um matagal imenso e muitas árvores. Também dava direto para o muro do meu quintal e, bem, era exatamente por ali que haviam entrado os ladrões todas as vezes que a minha casa fora assaltada no passado. Disse "todas" mas verdade seja dita, que eu me lembre enquanto criança, duas vezes. Bem ruins, por sinal, mas essa é outra história.
Por isso o terreno, pra mim, era um pouco como a Floresta Proibida do Harry Potter. Pior: na Floresta, embora houvesse a eminencia de um Voldemort, ainda tinha alguns unicórnios e centauros muito gente fina. No terreno, não. Eu olhava e ficava pensando quantas coisas horríveis e pecaminosas poderiam ter acontecido ali. Ou aconteceriam. Ou estava acontecendo naquele exato momento, porque as plantas cobriam. Era um cenário muito de filme de terror pra mim o simbolismo que o terreno carregava, por isso como a criança medrosa que era, eu nem olhava muito.
Quem ia bastante brincar lá na minha casa eram os três mais antigos da escola, aqueles que haviam entrado no maternalzinho ou no infantil 1, feito eu: a Victória, o Guilherme e a Gabriela.
Somente com o Guilherme ou com a Gabriela, com a Victória e a Gabriela juntas ou até mesmo com os três em alguma vez que a minha mãe, muito benevolente, deixava todos irem de uma só vez lá em casa, sempre chegava uma hora que a gente decidia enviar mensagens para o terreno.
Mesmo com muito medo de tudo aquilo, eles junto à mim me davam a coragem necessária pra fazer tamanha idiotice, como se eles não fossem ir embora alguma hora e quem fosse dormir ao lado dos barulhos do terreno, fosse eu sozinha.
Eu só partia pro terreno da diversão perigosa sem pensar nem duas vezes: a gente pegava pecinhas de brinquedos avulsos ou até mesmo cabeças de Barbie já quebradas e colocava verdadeiras mensagens da garrafa lá dentro.
Próximo à isso, só a vez em que eu peguei um vidro de perfume e escrevi "Auana + Vínicius" num papel e enterrei no quintal da minha avó. O que aconteceu depois foi que meu pai descobriu, tirou de lá, trouxe rindo pra mim e eu fiquei constrangida falando "obvio que não fui eu que fiz isso!".
Óbvio que não.
0 comentários
be kind <3