notificação de entrega: chegou mais um trauma pra você

outubro 03, 2020

Quando eu penso que a minha infância já foi perturbada o suficiente, minha irmã me lembra de algo que tava esquecido no arquivo desorganizado que existe no meu cérebro.

Não sei o que falávamos, quando ela lembrou de duas coisas:

1. Nossos pais nunca, nunquinha, jamais, saíram conosco quando crianças pra fazer um passeio-pra-criança. 

Sabe aquela coisa de "ah, vamos lá na praça brincar!"? Nunca existiu. Íamos a praça, pro meu pai encontrar com os amigos dele. Ou ao menos "vamos comer um lanche juntos naquele playground" também não - a gente ia no Kanguroo, a lanchonete com playground, tipicamente quando o papai precisava contar que ia ficar um tempo longe da mamãe. Feirinha de artesanato de domingo: usada apenas com a finalidade de comprar presentes de final de semana após semanas e semanas de brigas - e quando chegava em casa, minha mãe destilava seu ódio a cada uma dessas prendas.

2. A Páscoa da depressão dentro do carro

Minha irmã também lembrou de uma vez que a nossa mãe nos enfiou dentro de um carro, rodando por sei lá onde, e depois de um tempo estacionou e abriu as mãos para nós ali atrás: contou, aos prantos, que de presente de páscoa para mim era um pequeno Kinder Ovo, e pra minha irmã era um anel de coquinho. Enquanto ela falava ela soluçava, dizendo que não tinha dinheiro pra mais nada e que a vida tava difícil.

Puxado? Puxado. Mas precisava ser assim? Não precisava.

Era só ela falar, lá em casa mesmo, que a situação tava complicada e que esse ano não teria ovos. A gente dividiria, juntas, uma caixa de Bis e tudo já estaria muito melhor. Mas o clima de velório reinava até numa situação assim.

No momento que ela contou isso, o que eu não lembro tanto assim, pensei no absurdo que era fazer isso com as crianças. Mas depois eu lembrei que eu tenho o mesmo signo e ascendente da minha mãe e tentei me colocar no lugar dela pra entender porque ela tinha feito isso.

Na cabeça da minha mãe, era uma injustiça trabalhar tanto pra não ter nem alguns trocados pra presentear as filhas em ocasiões especiais. Deixar passar isso e fingir que tava tudo bem não era uma opção. Ela queria mostrar o quanto se sentia triste por isso.

Eu entendi, até senti pena. Mas criei um lembrete mental: quando no meu auge do dramático ascendente em câncer eu sentir inclinação para fazer algo do tipo, é melhor eu lutar contra ele. Não quero causar traumas à ninguém.

outras bobagens que já falei

1 comentários

  1. que puxa, Au
    mas o clima de tensão e tristeza por causa do que você sabe o que não era suficiente para sua irmã? ela precisava desenterrar mais isso?

    aqui em casa também foi phod@, mas não vou te contar e te deprimir ainda mais
    em vez disso, contarei um causo feliz: chegou aqui em casa, tem duas semanas, uma carta enviada pela minha penpal, que ela escreveu usando uma máquina de escrever ~ de verdade ~
    achei tão fofo, as pessoas só usam essas máquinas para decoração hoje em dia, e ela usou a dela para escrever a minha cartinha

    <3

    ResponderExcluir

be kind <3