a vida traumática das mulheres

janeiro 10, 2023

A vó do meu namorado tá passando uns dias aqui em casa.

Conheci ela aqui mesmo, com a visita, porque ela mora muito longe da gente, numa cidadezinha do interior do Paraná.

Ele por vezes contava alguma ou outra história sobre ela mas eu sabia muito pouco. Só que ela era muito religiosa e tinha várias filhas e um só filho.

Hoje engatamos numa conversa que só terminou porque agora tive que subir aqui, pro computador, porque logo vou começar a trabalhar.

Foi uma mistura de fofocas de família, com ela me explicando toda a linhagem dela, com um pouco de desabafo. Ela me contava coisas naturais da vida e, no meio do discurso, vez ou outra rolava algum trauma que vinha em forma de expressão atenuada como "então, e tal pessoa fazia muita feiura pra mim". 

Feiura. 

O que hoje, na nossa geração, poderia ganhar processos, sessões e sessões de terapia, threads no twitter e até novos movimentos criados, pra ela era resumido à mais uma feiura que ela prontamente passava por cima pra seguir com a vida.

É curioso que certas coisas do tipo, que aconteciam à ela, ela também relatou acontecer com outras mulheres da família. Enquanto que, quando contava causos dos homens da família, o tipo de perigo ou situação inconveniente eram outras: fulano que levou picada de cobra, o outro que deu ruim na hora de tocar a boiada, outro que trabalhava de manhã cedo até tarde da noite na rua sem descanso...

Situações adversas e difíceis, também, mas que deixam outro tipo de marca: histórias valentes ou pesadas pra contar. Coisas que você fala numa roda e todo mundo solta um "uau!".

Porém, as histórias que envolviam feiura da Ester não tinha interjeição possível. Eu só lamentava e pegava respiração pra comentar mas logo ela tava numa próxima linha da vida dela.

Um bocadinho de traumas que saíram em uma conversa aleatória sobre história de vida. 

Pra ela, infelizmente, já normal. 

Fico pensando que algum dia as pessoas tem que reunir em um livro a vida muito valente das mulheres do Brasil. Das de  antigamente, acredito que muitas, muitas mesmo (talvez até uma grande maioria) compartilham os mesmos relatos de feiuras sofridas. É necessário parar pra ouvi-las e dar importância ao fato de que sobreviveram, se reergueram, conseguiram, mesmo com tantas adversidades, criar toda uma família. 

É muita força.

outras bobagens que já falei

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