a família do papagaio
abril 05, 2020
Tava aqui fora tomando sol no meu pé e lendo um livro. A verdade é que eu queria tomar sol no corpo todo mas tenho passado alguns ácidos no rosto, todos os dias antes de dormir, e descobri recentemente que por conta disso não posso tomar sol na minha cara. E aí acho que fica meio esquisito se minha cara ficar de uma cor diferente do corpo, caso eu tome sol só no corpo.
Mas os meus pés podem ter o benefício da vitamina D um pouquinho porque na sombra tá um pouco gelado. Aí, dessa forma, não fica completamente gelado, entendeu?
Ouvi um barulho, como se fosse uma voz esquisita, não humana, vinda da casa vizinho enquanto eu lia. Instantaneamente, pensei: deve ser o Lelo.
Fazia muito tempo que eu não lembrava do Lelo, o papagaio do vizinho. Ele era um personagem comum no meu mundo de 2005, 2006 ou 2007. Hoje o vizinho se mudou, não sei nem se o papagaio ainda está vivo. Por isso, afirmo com certeza, não tinha como ser o Lelo.
Podia inventar aqui, mas vou ser sincera. Eu não tinha tanta simpatia pelo Lelo, não. Achava legal que minha vó tinha um vizinho papagaio mas me frustrava ouvindo do lado de cá: porque embora fosse um papagaio, o Lelo só falava uma única coisa: Lelo.
Como se não bastasse, a vizinha gritava o dia inteiro "Lelo!"
E ele respondia "Lelo!!!".
E ela gritava de novo "LELO!"
E ele gritava mais alto do que ela "LELO!!!".
O que me interessava mais era o filho da vizinha, o irmão humano do Lelo. Ele se chamava Francisco e tinha duas características que me lembravam e muito o meu personagem preferido, o Harry Potter: olhos claros e cabelos lisos bem, bem escuros. Não o personagem, na realidade, era mais o ator do filme... Mas também dá na mesma.
Na minha cabeça de pré adolescente, as vezes, vinha a ideia de que a gente iria casar um dia. A culpa disso é todinha da JK Rowling. Jamais tivemos algum tipo de contato. Eu duvido que ele fosse legal como o Harry era. Aliás, até já fui em algum ou outro churrasco na casa dele, mas eu mal abria a minha boca pra falar com ele, então eu realmente não tenho como saber.
Teve um dia, porém, que correndo no quintal daqui, eu topei com o meu dedão na pedra que circunda a casa. A minha unha simplesmente abriu ao meio (e há uma cicatriz esquisita que, mesmo nascendo outra, mantenho no pé esquerdo até agora e creio que irá me acompanhar pelo resto dos meus dias).
Meu vô, vivo na época, veio e me ajudou a pular num pé só até a casa mas o estrago já estava feio. Um mar de sangue se acumulava cada vez mais e eu chorei bem alto. Paramos no jardim para tentar estancar o sangue de alguma forma e, com meus berreiros, a vizinha ouviu. Vieram pro lado de cá ela e o Francisco. Eu lembro que ele, quando chegou, falou "nossa, o que aconteceu?" e eu fiquei com um breve sentimento de aconchego ao me sentir importante por conta dessas quatro simples palavras.
Depois disso, não lembro de mais nada dele.
Não sei pra onde foram, um dia eu acho que ouvi minha vó dizer que voltaram pra São Paulo mas não tenho certeza de nada. As vezes minha cabeça que deu um fim na família que eu mal conhecia.
De qualquer forma, acabei de abrir o Google pra ver quanto tempo de vida tem os papagaios e fiquei chocada de ver que algumas espécies duram até 80 anos. Será que o Lelo tá gritando em algum apartamento da cidade de pedra? Outra coisa é que, se o Francisco ainda se parece com o Daniel Radcliffe, também não me interesso mais. Ele quando era mais novo era bem melhor do que como está agora.
1 comentários
sua dor na unha doeu em, aiaiai!
ResponderExcluir[neurônio espelho é um problema...]
be kind <3