revirei o passado e fiquei bagunçada

abril 01, 2020

A minha amiga tava de mudança. Já tinha levado tudo pro apartamento novo, então a gente passou uma última vez no apartamento antigo dela, pra ver se tava tudo vazio e ela não tinha esquecido nada mesmo. Eu olhei mais uma vez para os cômodos vazios e lembrei de vários momentos lá: dois carnavais, risadas, correrias, arrumações, filmes... Falei: "você tem noção de que você NUNCA mais vai pisar aqui? Nunca, nunquinha!".

Ela concordou e nós fomos embora. Eu continuei impactada.
Continuei pensando naquilo.

Esse não é um pensamento inédito na minha vida, muito pelo contrário. Quando um outro grande amigo se mudou eu falei o mesmo. Quando eu me mudei pela primeira e pela segunda vez, eu pensei as mesmas coisas. Essa consciência de que é isso, é o fim da linha. O ponto final foi naquele dia lá, daquele jeito, e eu vou lembrar dessa mesma lembrança, da mesma forma com que lembro agora com 26, com 36, 46, 86, 96, não importa. Ela ficou, pra sempre, daquele jeito, e esse momento acabou de acontecer.

É doido, não é? Não é que eu seja apegada (ok, talvez seja), mas pra mim é muito maluca a sensação de que tem coisas que são, sim, completamente finitas. 

É o fim e pronto. 

E eu não to sendo dramática, não. Porque tem muitas coisas que a gente acha que é o fim mas é um fim figurado: o fim de uma moda (sempre volta), o fim de um filme (vai saber se não vão fazer continuação), o fim até de determinados relacionamentos, eu sei lá! As vezes algo muito doido acontece e as pessoas ficam próximas novamente, a gente não tem como saber. 

Definimos que é o fim quando bem entendemos mas lá no fundo, bem no fundo, a gente sabe que a vida pode vir e fazer surpresa.

Só que não nessas ocasiões. Qual a chance de voltar no apartamento 51 da rua de nome de flor? Zero. Qual a chance de eu voltar a morar na minha primeira casa com a minha mãe, a minha irmã e os meus dezessete anos de idade? Nunca mais. São coisas que, se for pensar bem, desde o seu concebimento, são predestinadas ao nunca mais. Porque são verdadeiros cenários inteiros. Coisas particularmente singulares que derivam de um montão de outros fatores. Tudo junto. E daquele jeito. Daquele jeito, exatamente daquele jeito? Nunca mais.

Eis que agora eu caio, mais uma vez, num vídeo que fiz pra um ex namorado e me sinto saudosa justamente por conta do nunca mais. E, de novo, não é por conta da relação! Se quer fundamentos, eu já tive alguns comebacks com ele e não lembro deles com tanto carinho, assim, não. Porque não é ele, não sou nem eu. Aliás, eu sei que ele não era bom pra mim no final das contas e eu sei que eu sou muito melhor do que aquela minha versão que tava ali nas cenas. 

É que aquela Auana de dezenove anos que tá naquelas cenas, que tomava milkshake no Jardim Recreio, colocava Foster the People pra dançar sozinha, que tinha tanto carinho por alguém assim, usava bota de cano alto com calça jeans quase todos os dias, montava cabaninha de cobertores no inverno e esperava no sofá pra verem filme da Disney juntos, ela não existe mais. 

É claro que eu posso voltar lá no lugar do milkshake, posso fazer uma cabaninha aqui e agora, posso dançar essa música... Sim, eu posso. Mas daquele jeito que se sentia a Auana, aquela que o mundo todo tava dentro dessa primeira frase, não será.

Aquilo tudo era tudo que ela tinha. Eu era ela. Era. É um passado que acabou e acabou demais. Por isso que eu olho pra aquelas cenas nesse velório todo como quem se despede.

Cada vez que eu dou play, eu me despeço de algo que irremediavelmente já morreu.

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1 comentários

  1. essa frase do final tá massa

    mas Au, lembra que você disse num podcast que passado, presente e futuro coexistem?
    pois então, vai ver agora você disse tchau para alguém, mas ao mesmo tempo você acabou de conhecer essa pessoa, ou acabou de chegar no apartamento onde morou com a sua mãe quando era pequena.

    louco pensa isso, né?

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