deitada no carro

agosto 11, 2020

Quando eu era criança, eu costumava fazer longas viagens com o meu vô. A gente ia pra Lavras, em Minas Gerais, geralmente buscar a minha vó, que já tava por lá.

Eu poderia ir na ida mas eu ia na volta, por conta da escola. Lembro de ir deitada no banco de trás e olhando o adesivo da maçonaria que ficava grudado no vidro do carro ele. 

Lembro da sensação exata do meu corpo chacoalhando e eu tentando lutar contra a gravidade e cair pros lados. Voltava à posição inicial e continuava olhando lá pro azul de cima, o adesivo, o vidro.

Não lembro bem o que conversávamos durante aquelas horas e que músicas meu vô ouvia no rádio do carro. Não lembro mesmo. Eu só lembro da sensação, do que eu via, ali, deitada e também do cheiro que o Monza cinza dele tinha. Pra mim aquele cheiro era o próprio cheiro da cor cinza, porque ali dentro os estofados também eram dessa cor e, muitas vezes, a camisa e a calça do meu vô também.

Uma vez eu pensei que eu não iria conseguir aguentar de saudade quando ele fosse embora. Ele ainda estava vivo, chegando com o pão no fim de tarde, como sempre, e eu pensei que eu não iria ter estruturas pra viver um momento onde essa rotina não existisse mais.

Meu vô não existe mais. Pelo menos não aqui embaixo. E eu tive estruturas, sim, tô aqui e não tava pensando nessa chegada dele com os pães nas últimas vinte e quatro ou setenta e duas horas. Tá tudo bem. 

É aquilo, a gente se acostuma.

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be kind <3