amor de novela

abril 07, 2020

Eu era uma criança muito noveleira.

Nunca tive em casa um aparelho de TV por assinatura e, confesso, depois dos sete anos de idade eu não curtia mais TV Cultura e sua grande programação infantil. Até essa idade eu simplesmente amava Castelo Rá Tim Bum e uma meia dúzia de desenhos (por sinal, tinha um que as crianças eram fantoches e eu nunca mais achei o nome em lugar algum), mas depois de assistir Cartoon Network e Nickelodeon na casa dos amigos e tios mais abastados ou até mesmo os desenhos repetidos da parte da manhã do SBT e da Globo (sem deixar de fora o Programa da Eliana na Record, é claro), eu simplesmente achava que os desenhos da Cultura tinham parado na vida. Cadê o movimento? O fator mais atual? Aquele grupinho de crianças descoladas, a atitude, uma moral da história que me lembra de algo da escola, uma trilha animadinha, eu sei lá? Eu não queria ver aquele menino fofo andando devagarzinho, uns bichinhos sendo amáveis ou um casal de ratinhos. 

Os desenhos dos outros canais conversavam muito mais com a minha realidade no momento e eram muito mais o que eu queria assistir. Por isso, aos sete, eu abri mão da TV Cultura.

E aí, me sobrava as novelas.

Assisti uma infinidade delas (muitas junto com a minha vó, porque mesmo antes de morar com ela eu vinha muito pra cá) e meu sonho da vida era conhecer o Projac. 

Até mesmo naquela época do colegial que todo mundo já torcia o nariz pra novela, salvo uma ou outra das oito que acabava caindo no gosto popular, eu mantinha meu silêncio sobre acompanhar todas e ainda por cima visitava um site que listava desde a primeira até as que estavam em produção, catalogado por ano e com dados como trilha sonora e curiosidades de bastidores. Adorava consumir esse tipo de conteúdo. Veja só: não eram os boletins do que iria acontecer no capítulo seguinte que me fascinava, mas tudo que havia por trás de cada folhetim.

Citando suas trilhas sonoras, foram muitas delas que me apresentaram grandes cantoras, cantores e bandas: eu tinha vários CDs delas. Chorei muito com a trilha sonora de "América". Tinha carinho especial pelas músicas de "Laços de Família". A de "Coração de Estudante" também era tudo pra mim.

É engraçado que minhas memórias se misturam às novelas de um jeito doido: lembro uma briga dos meus pais que eu ouvia enquanto passava "A Padroeira". Me recordo de esperar minha mãe chegar do trabalho porque eu me lembro de "Mulheres Apaixonadas" na televisão. 

Lembro de um dos piores dias da minha vida, que um momento difícil aconteceu horas depois de dançar na sala igual a Jade de "O Clone". Lembro da minha mãe limpando a casa enquanto eu assistia, junto com o meu pai, "Uga Uga". Me recordo dos horários de verão da infância, porque quando tinha piscina eu saia dela e já estava quase no horário de "O Beijo do Vampiro". Lembro até que, mais velha, já no cursinho, percebi que estava doidamente apaixonada porque comecei a suspirar com uma cena de romance do Fiuk com a Bruna Marquezine em "Aquele Beijo". Esperar a van pra ir pra faculdade assistindo "Flor do Caribe" ainda no comecinho da graduação, me faz puxar na memória e achar engraçado aqueles breves momentos em que eu ficava com frio na barriga por não saber o que esperar daquela nova fase.

Aí a vida adulta foi chegando e eu perdi uma, outra, mais outra... Chegou hoje, no ponto que eu não faço a menor ideia da novela que tá passando no horário das sete horas, tampouco na das seis. Só sei que tem o Selton Melo. Ou Danton Melo. Ok, agora não tenho tanta certeza assim. Assisto, quando dá, à "Amor de Mãe". É isso.

Acontece, né? Não é que eu tenha aberto mão, assim como aconteceu com os desenhos da TV Cultura. Ao contrário dos desenhos do canal, embora em certo pontos o que passa na teledramaturgia brasileira até conduza com a minha realidade, o fato é que não é nem isso que importa mais. Mesmo que fosse cem por cento a minha vivência, aumentou muito o número de coisas vividas aqui fora e faltou espaço pra simulação da televisão.

A vida real engoliu bastante o tempo de acompanhar essa minha velha conhecida que, antes, era como uma figura invisível da minha família. Hoje eu encontro com ela na rua de vez em quando: nos demoramos nas conversas, mas nem sempre nos divertimos tanto assim.

(Mas eu ainda quero conhecer o Projac um dia).

outras bobagens que já falei

1 comentários

  1. você nas novelas da Globo e eu nas do SBT - acho que eu gostava de sofrer com o drama dramático da Televisa

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be kind <3