atropelamentos felizmente mal sucedidos
abril 14, 2020
Uma vez eu tava indo em direção à casa de uma amiga a pé, quando, ao passar pelo sacolão de frutas eu não percebi que um carro saia pelo estacionamento do lugar. Eu fui com tudo, o carro foi com tudo e eu bati minha barriga no espelho lateral. Não sei se foi exatamente a barriga, pensando bem agora, mas foi alguma parte do corpo e assim nós dois paramos: o carro e eu. Aí eu vi que dirigindo ali estava uma amiga da minha irmã, o que me deixou com ainda mais vergonha, e ela vendo que era eu, prestes a me xingar, apenas parou e sorriu amarelo. Paramos as duas naquele momento de constrangimento sem fim. Ela passou e eu passei.
Outro dia, indo trabalhar, eu corria apressada pela Oscar Freire. Tava de fone, por isso não ouvi o "pi-pi-pi" de uma garagem ao lado do metrô que leva o nome da rua. Quase fui nessa também. Os outros pedestres me olharam com cara de "você é idiota ou o quê?" e eu respirei aliviada por ter parado a tempo. Meu anjo da guarda trabalhou bastante por mim.
Essas foram as únicas duas vezes que quase fui atropelada. Ainda bem.
Ah! Na verdade não. Teve mais uma.
Lembrei agora de um encontro que eu tive lá em 2011. Eu saia do cursinho e ele me esperava do outro lado da rua numa caminhonete 4x4 que roncava horrores. Eu estava nervosa e ansiosa não só pelo encontro, mas porque inteiro ele era bastante errado: tava deixando os estudos de lado pra sair com ele, tava pegando carona com um desconhecido pela minha mãe sem avisar ninguém e ainda por cima tava indo com ele lá pra uma cachoeira x no meio do nada - e que eu nem sabia o endereço ao certo, mas que eu iria guiando no caminho e tomara-que-a-gente-achasse.
Esse mix de fatores, pudera, estava mesmo me deixando numa pilha de tensões. Tão tensa que hoje eu penso que só um nervoso muito grande poderia ter me feito escolher aquele colete rendado horrendo pra aquele dia, mas tudo bem. A mão suada, o coração a mil e as expectativas tortas me abraçaram e falaram: vai, minha filha, corre lá. E me fizeram atravessar sem olhar direito o que qualquer um ali veria: os carros estavam parados no trânsito, mas as motos, não. Eu nem considerei as motos. Eu nem lembrei das motos. Eu atravessei correndo.
Aí o cara, lá do outro lado, deu um grito:
- AUANA! Para!
E eu parei. Uma moto vermelha tirou foi só um fino de mim, e partiu. Foi realmente por um triz.
No auge dos meus dezessete anos eu não tinha me dado conta de que realmente era muita sorte eu estar viva (ou, pelo menos, sem lesões) pra contar a história. Foi por muito, muito pouco. Ele repetiu por metade do caminho "menina, você é muito doida!" e eu ficava rindo como se não fosse nada demais.
Bom, não me safei totalmente. Mais tarde minha mãe viu as fotos que eu (que sempre gosto de fotografar tudo desde sempre) tirara e do jeito mais idiota possível havia deixado no desktop do computador compartilhado: nós dois na caminhonete, ele dirigindo, nós dois na cachoeira, eu dependurada de cabeça pra baixo numa pedra.
Naquele dia eu sobrevivi, mas meus ouvidos, nem tanto.
1 comentários
que texto ótimo!!
ResponderExcluiruma vez, tem uns 15 anos, uma amiga que hoje não é minha amiga meio que quase foi atrapalhada de lado. e quando ela respirou e pensou ufa, ela quase foi atropelada por trás.
e eu, do outro lado da rua, em vez de atravessar e ajudar, me acabei de rir porque foi trágico mas foi tão engraçado
be kind <3